Será que o Ubuntu está perdendo o charme? Edições problemáticas não são novidade na história da Canonical e, a rigor, não há nada de diferente com a última, a 9.10 ou Karmic Koala. Na história da distribuição são comuns reclamações contra problemas na detecção de
hardware, contra um ou outro aplicativo mais instável ou contra temas demasiado distantes do padrão estético dominante. Desta vez, o desapontamento, geralmente restrito aos fóruns de suporte parece ter extravasado para o círculo estreito e influente, dos chamados "formadores de opinião". Basta dar uma olhada nas matérias e resenhas sobre o 9.10 para perceber o fenômeno.
Nada é tão comum na história do Ubuntu quanto o contraste entre mensagens iradas nos fóruns de suporte e resenhas positivas ou, até mesmo, entusiasmadas. Já houve edições mais controvertidas nos fóruns do Ubuntu, mas, em contrapartida, nunca as análises sobre uma nova edição da distro foram tão frias ou negativas quanto as que mereceram o Karmic Koala.
Vejamos o caso da resenha cuidadosa e equilibrada do site Dedoimedo (
http://www.dedoimedo.com/computers/ubuntu-9-10.html). O título já não é nada animador,
One step forward, two steps back ("Um passo para frente, dois passos para trás"), mas o pior mesmo foi reservado à conclusão:
F
or me, Ubuntu 9.10 Karmic Koala is a disappointment. Not because it's bad, but because it's not better than Jaunty. No progress is a lack of progress.
To play the Devil's advocate, let's take a look at the good stuff Karmic brings. Improved boot times? Well, if you take my new laptop as an example, with 18 seconds on the slow end of a 5,400rpm disk, how much more do I need? Ubuntu One? I'd rather have GParted not crash, thank you. New icons and wallpapers? Cosmetics really.
Ubuntu 9.10 botches when it was most needed, when it could not afford to fail. It's a spectacular disappointment, for so many of us who expected it to be the one release that would show Microsoft and Apple that Linux is making it big. And then came the big flop. Nothing dramatic happened, which is exactly the problem. Karmic did not cause a stir of excitement and awe. It's just another distro, with rather bad QA. (...)
Ubuntu 9.10 works and works OK, but it's nothing spectacular and it has more issues than Jaunty. If you're asking me, postpone your upgrades for at least a month, let the developers sort out some of the glaring problems they did not find in the 34-second validation they had between the releases.
Don't get me wrong, I love Ubuntu and use some 8-9 instances on several machines, but software is only software, a tool to be used and abused. For now, I'd recommend you do not install Karmic, unless you have an absolutely flawless experience.Compare estas palavras com o que se publicou na mesma página a respeito de edições anteriores e veremos que o estado de espírito mudou. Fenômeno isolado? Então dê uma olhada neste artigo,
Hey Ubuntu, Stop Making Linux Look Bad, publicado na Linux Magazine (
http://www.linux-mag.com/cache/7600/1.html). E o que afirma o Autor? Em resumo, que era esperado o maior lançamento da história da distribuição, mas que o Ubuntu falhou exatamente quando mais se esperava que o Linux brilhasse. E a falha não está na aparência do sistema, não é o "marrom Ubuntu" o que se critica, mas a falta de estabilidade do sistema. Ou, como diz a matéria
Ubuntu’s Koala is loveable, but can bite (
http://www.techcentral.co.za/ubuntus-koala-is-loveable-but-can-bite/11042/):
Despite the impressive incremental improvements in Ubuntu, however, each new release continues to be plagued by the odd bug, sometimes including a real clanger or two. For Karmic Koala, the deal-breaker this time appears to be a newly-introduced bug involving DSL connections. It was reported by many users, but was not fixed before the final release. Though a workaround exists, it is too complicated for most regular users to apply, and while an update will no doubt fix this bug soon, that is scant consolation if you cannot connect to the Internet to download it.E o que perturba é que mesmo análises mais positivas, como a do brasileiro Paulo Seikishi Higa (
http://www.guiadopc.com.br/artigos/12056/analise-do-ubuntu-9-10-karmic-koala.html) não deixam de relatar os mesmos defeitos inquietantes, graves demais para uma distribuição cuja comodidade ("O Linux para todos") sempre foi o ponto forte.
Mas será que o Ubuntu não estaria pagando o preço de ser visto como uma espécie de vitrine ou embaixador do mundo GNU/Linux perante os "infiéis"? A simples hipótese demonstra o quão importante a distribuição da Canonical tornou-se para nós e, de fato, o peso disso transparece claramente em muitos dos textos mencionados. Por que, afinal, a distribuição da Canonical teria decepciona quando o Linux "mais precisava brilhar" (
vide matéria da Linux Magazine)? Sim, é claro, porque o Windows 7 está aí e - aparentemente - de vento em popa. E, se o Karmic não consegue uma edição de impacto semelhante: "Que derrota para o Linux!"
Mas não é injusto da nossa parte exigir da pequena companhia de Mark Shuttleworth os mesmos prodígios de que é capaz a gigante presidida por Steven Ballmer? Não seria um peso excessivo aquele que desejamos colocar nas costas do Karmic? A Canonical tem sim cometidos alguns erros e a insistência no ciclo dos seis meses é, provavelmente, o maior deles. No entanto, seria um grande erro de nossa parte associar o destino do Linux ao êxito ou popularidade de uma única distribuição. O GNU/Linux é uma equipe com vários outros bons jogadores: openSuse, Mandriva, Fedora, Sabayon, Linux Mint. Não custa nada exaltar também seus talentos e começar a variar as jogadas.
Em suma, se me fosse dado escolher uma boa notícia para o mundo GNU/Linux no próximo ano, eu jamais optaria por uma "edição impecável" do Ubuntu. Preferiria muito mais que outras distribuições conquistassem, ao menos em parte, o mesmo crédito e a mesma popularidade que a distribuição da Canonical tem conseguido ultimamente, sobretudo entre quem não acompanha o mundo do Software Livre. É um sonho? Se a resposta for "sim", eis aí outro problema!